Cantinho Cultural

Augusto dos Anjos

por Luiz Roque professor, poeta e escritor   

AUGUSTO DOS ANJOS

 Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão, essa pantera
Foi tua companheira inseparável

Acostuma-te à lama que te espera.
O Homem que, nessa vida miserável,
Vive entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende o teu cigarro.
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija.
(Versos íntimos)

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em Cruz do Espírito Santo, PB, a 20 de abril de 1884. No Recife, iniciou-se em Direito, mas formou-se em Letras. Após algum tempo, foi para o Rio de Janeiro, onde exerceu o magistério. Casou-se com Ester Fialho, que lhe deu três filhos, sendo que o primogênito nasceu morto. Em 1914, foi para Leopoldina, MG, como diretor de grupo escolar. No mesmo ano, em novembro, veio a falecer de pneumonia dupla.

Seu primeiro e único livro (EU) foi publicado em 1912, financiado por seu irmão Odilon. Os poucos leitores que teve se dividiram entre detratores e entusiastas.Morto o poeta, foi feita, em 1920, uma segunda edição do livro, agora com o nome EU e OUTRAS POESIAS, que vendeu rapidamente 5500 exemplares, A terceira edição, em 1928, teve êxito retumbante. Hoje, já se fizeram mais de 30 edições. Como é comum acontecer,o gênio de Augusto não foi reconhecido em vida.

Em "Psicologia de um vencido ", Augusto termina:

Já o verme- este operário das ruínas-
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar-me os olhos para roê-los
E há de deixar-me apenas os cabelos
Na frialdade inorgãnica da terra!

Augusto combinava (com muita poesia) o pessimismo dos românticos, o cientificismo dos naturalistas do século XIX, o cuidado dos parnasianos e um certo estilo dos simbolistas, que inclui até o uso de maiúsculas. Mas, essencialmente, Augusto incorporou um aspecto da escola dadaísta francesa, que floresceu antes da Primeira Guerra: o belo no horrível.

Ele foi contemporâneo de Graça Aranha, Cruz e Sousa, os parnasianos Bilac, Vicente de Carvalho, Alberto de Oliveira, Raimundo Correa. Também foi do seu tempo a genialidade de Euclides da Cunha, do qual um contemporâneo afirmou que "sabia tudo da sua época".

Mas em Augusto dos Anjos essa vastidão de conhecimentos surpreende mais, por ele ter vivido só 30 anos e não ter feito qualquer carreira científica.

O Lamento das coisas
Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

È a dor da força desaproveitada,
-O cantochão dos dínamos profundos
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

Augusto e a Evolução:

A um gérmen
Começaste a existir, geléia crua,
E hás de crescer, no teu silêncio, tanto,
Que é natural, ainda algum dia, o pranto
Das tuas concreções plasmáticas flua!

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Antes o Nada, oh! gérmen que ainda haveres
De atingir, como o gérmen de outros seres,
Ao supremo infortúnio de ser alma!

Monólogo de uma sombra
Sou uma sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias.
Larva do caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias.

Augusto, o Pai e Deus
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também trilhando as mesmas ruas.
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

-Seria a mão de Deus?! Mas Deus, enfim, 
É bom, é justo, e sendo justo Deus,
Deus não havia de magoar-te assim.

Aqui o poeta é triste, como sempre, mas não se vê aí o chamado "Poeta da Morte".

Budismo moderno
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Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo.

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

A um carneiro morto
.................................
Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro.
Pois tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos-fontes de perdão-perdoaram!

Oh! Tu que no perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no dia do juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!

Este poema vem a calhar na época atual. Percebendo o desaparecimento de várias espécies animais, o homem passou a ter grande cuidado com elas. Mas o mesmo não ocorre com os animais de corte, que continuam tratados com total brutalidade. Além de jacarés, sepentes, aves de rapina, etc., não deveríamos também ter maior respeito para com bois, carneiros, porcos, frangos ou, mesmo, peixes?

Independentemente de sabermos se Augusto era ou não vegetariano, este poema bem revela sua extrema sensibilidade.

Talvez um dia, os homens pensem assim.

( Final da parte 1)  

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